“Como tu viras suicida.
Você é muito feliz, tem um namorado lindo, amigas maravilhosas, está em uma classe social alta, uma escola ótima, seus pais são um máximo e te dão tudo. Resumindo, a sua vida é perfeita, até que um dia tudo começa a mudar… .
Em um sábado de madrugada, um frio tenebroso, seu namorado entra no facebook e começa a falar com você. Você acha muito estranho, porque ele nunca te chama no facebook, sempre fica nas sms, ou mesmo te liga. Ele está seco com você, e você assim pergunta para ele o que estava acontecendo, porque, nos últimos dias ele andava muito estranho com você, e não estava sendo tão doce quanto era antes. E ele, dizendo a pior notícia que uma namorada poderia receber, e assim dizendo com uma normalidade absurda, diz que te traiu. Sim, ele beijou outra. Ele fez sexo e foi para o motel com uma pessoa que não era você. Você fica inconformada. Como ele poderia fazer aquilo? Logo o seu namorado? Por que isso? E então você xinga ele de tudo quanto é nome possível. Desliga o seu notebook, deita na cama e passa o resto da noite chorando. Liga para suas amigas e elas não atendem. Você chora, chora, chora. E assim, fez a coisa que você nunca pensou em fazer, foi até o quintal, naquele armário velho onde seu pai guardava algumas ferramentas, e pegou um canivete. E com esse canivete, foi cortando seus pulsos. Pegou seu compasso da escola e desenhou em seu pulso um coração partido. Como estaria por dentro? Um coração quebrado aos pedaços. Uma tempestade, ou pior que isso, estava acontecendo um dilúvio dentro de ti. Seu coração parecia ter virado uma pedra de gelo, e com um martelo, alguém o quebrou em partículas muito pequenas. E assim vai a sua noite. Nessa angústia. No domingo, você não sai do quarto, nem para comer. Só fica pensando e pensando. Não liga pra ninguém. Apenas consulta Deus. “Oh meu bom Deus, o que devo fazer?” Vazios dominavam seu quarto, sua mente e principalmente aquele coração partido. O filho da puta de seu namorado, ele sumiu, não deu mais notícias, não deu mais ás caras. Nem deve estar se importando, deve tá la, comendo a mina com que ele me traiu. Foda-se ele. Foda-se aquele desgraçado, que ele se apague da minha memória. Para sempre. […] Na segunda-feira suas amigas ainda não sabiam do ocorrido. Você nem fala com elas. E assim elas vão falar com o filho da puta -digo, o seu ex namorado-. O pior é isso. Elas são amigas dele. Melhores amigas dele. E é isso que vai foder com sua vida. Sim. Ele vai fazer as suas cabeças e elas também vão ficar contra você. Dito e feito. Elas também estão contra você. E então você fica totalmente solitária na escola. Suas amigas te deram as costas. E teu namorado, o chifre. […]
Graças à Deus, o sino tocou. Hora de ir embora. Você chega na tua casa, e nem sente fome. Seus pais saíram, você está sozinha. Então vai até o banheiro, e lá enfia o dedo em sua goela. Vomitou. Sim, vomitou para ver se sai alguma coisa dali, daquele vazio, se sai essa angústia, esse mal-star, essa coisa ruim que você está sentindo. Você sempre disse para as suas amigas que não vale a pena chorar por filho da puta mas olha quem está chorando? Você mesmo. A dona dos conselhos. Nem você acredita, mas sim você está chorando por um filho da puta, nojento, que um dia foi seu namorado, um dia disse que te amava verdadeiramente, e que um dia teve a capacidade de te trair.
Quatro dias se passaram. Suas amigas nem falaram com você. Tu entra no twitter, e vê indireta delas te xingando. Tu querias saber o porquê de toda xingação sendo que quem te traiu, quem errou, quem acabaste com o relacionamento foi ele. Então, tu sai pra rua, e faz uma coisa que você sempre odiou e tinha prometido a você mesma que nunca iria fazer. Fumar. Tu começou a fumar. Três maços por dia. Um por hora, ou por minuto. E lá estava você, todos os dias, sua cama, uma absolut do lado, três maços de cigarro e lágrimas. Bebia se embebedava, até cair num sono profundo. Onde sempre sonhava estar caindo em um buraco sem fundo, uma escuridão total, escutava gritos e ruídos, vozes, não sabia certamente o que diziam, mas escutava.
Levou a vida assim, durante 1 mês mais ou menos. Passou a comer umas bolachinhas água e sal. E o seu peso? Ia diminuindo cada vez mais. Sua mãe e seu pai, trabalhavam muito, e nem viam você direito, afinal tu não saias do quarto.
A amizade com as meninas, antes suas melhores amigas, acabara de vez. Elas só ficavam atrás daquele filho da puta que te traiu. Uma já tinha até ficado com ele. Que se comam também.
Em uma terça-feira você faz uma carta para os seus pais.
“Queridos pais, eu amo vocês e vocês não tem noção o quanto. Vocês me deram a vida. Mamãe ficou me aguentando nove meses em sua barriga. Vocês me ensinaram a andar, a falar, me deram educação. Batalharam para ser quem vocês é hoje. Me colocaram na melhor escola da cidade. Me deram tudo o que eu queria. Eu só quero agradecer vocês por tudo isso. Hoje, tomei uma decisão inesperada. Eu mudei muito. E foi tudo por aquele filho da puta do Lucas, ele me traiu, sim, e as minhas amigas viraram às costas para mim. Estou acabada. Anoréxica. Com os pulsos cortados. Viciada em cigarros. E alcoólica. Não dá mais para viver. Se eu tivesse falado isso pessoalmente a vocês, sei que iriam me botar de castigo ou me internar, e perguntar o porquê não pedi ajuda a vocês. A resposta é que ninguém pode me ajudar. Eu enfraqueci. Graças aquele filho da puta do Lucas. Matam ele por mim, por favor. E vocês também, com todo o trabalho de vocês, nem me viam, nem viam minha situação, então, deixei quieto. E hoje estou me despedindo de vocês. Está impossível viver. Um beijo no coração de cada um. Eu estou fazendo essa carta, chorando muito, muito, muito. Saiba que eu amo muito vocês. E obrigada por cada milésimo de segundo passado com vocês. Eu espero felizmente vocês no céu. Um beijo, de sua querida filha.”
Após ter escrito a carta você a prega na geladeira com um imã. Pega sua mochila. E diz adeus a sua casa. Chegou a hora de sair dessa vida amarga. Vai até a ponte mais alta que existe, embaixo é um rio enorme. Você pula de lá. E o pior -ou melhor- você não sabe nadar. E é assim que tu vira suicida. Olhe só o que um filho da puta pode fazer. Homens realmente não prestam mesmo.”
“Eu nunca fui forte o bastante para dizer á um desconhecido o que se passava aqui, dentro de mim. Eu nunca fui cabeça fraca de ficar, quando a minha vontade era ir. Eu sempre segui meus instintos, sempre segui minha cabeça, sempre fui pelo o que eu acreditava. Eu não era assim, tão ingênua do jeito que hoje me encontro, não fui nem se quer por um dia fraca ao ponto de olhar para cima e desejar que o dia comece novamente, eu não sou assim. Desconheço o que hoje eu sou. Desconheço o que eu tento passar para as pessoas. Escrevo aqui, para você, quem com certeza não vai me trair e sair falando por aí a fora onde meu ponto fraco se encontra. Já ouvi dizer que paredes também escutam, e que portas são apenas falsas seguranças. Que sempre estaremos sendo vistos e acompanhados por algo ou alguém, de diversas vezes. Então escrevo aqui, desabo em cima de ti, um simples teclado sujo e velho. Desculpe a força que ando colocando ao teclar cada letra e pela hipócrita lágrima que escorre por meu rosto a cada frase completada. Não é culpa minha desistir agora. Culpo a quem não me ensinou a ir embora quando eu mais precisava ir. Já te disse, sempre fui embora quando eu queria e via a necessidade de ir. Até agora, se queres saber, não sinto um pingo de vontade de seguir em frente. Se era isso o que todos queriam saber, hoje compartilho com você, não quero ir. Acho que o fim está próximo também, sinto meu corpo negando todos os remédios que esta noite tomei. Não fizeram o efeito que eu queria, não mesmo. Era para eu ter acordado melhor, ou dormido melhor, tanto faz. E se quer saber mais, eu quero desistir. Hoje pela manhã, sentei-me em um banco e me coloquei a pensar. Tive até mesmo uma conversa formal com um homem que passara por mim.
— Está bem, garota?
— Sim, tenho apenas quinze anos, porque não estaria?
— Está a mais de dez minutos olhando para a revista , sem trocar de página, sem mudar o foco.
— Eu estava lendo calmamente.
— A revista está de cabeça para baixo.
Eu não havia percebido, eu não estava ali. Estava em muitoa lugares menos ali.
— É, eu não estou bem.
— É o amor, não é?
— Não, nada disso. É quem eu amo.
— E o que tem de errado com isso?
— Nada, apenas não anda me fazendo bem ama-la.
— Culpa dela?
— Não, nada disso. Culpa minha.
— O traiu?
— Pior, eu não soube amar.
O homem tinha ficado pálido, não sabia o que falar. Me olhou por alguns segundos, engoliu seco.
— Você?
— Nós dois.
— Bonito a forma que diz “nós.”
— Bonito seria se existisse.
— E a culpa também é sua de não existir?
— Não, dessa vez é dela.
Ele me olhou, deve ter pensado milhões de coisas.
— Ela?
— Sim.
— Quem?
— A distância meu caro. A distância.
O homem ficou rouco, engasgou-se com o café frio que tomava.
— Entendo.
Pensei que tinha acabado por ali aquele tal diálogo, até que ele se vira e diz:
— E porquê não amar quem está perto?
— O quê? Não entendi.
— Digo, não entendo o porque de não amar quem mora aqui, nessa cidade.
— Ele mora á duas quadras daqui, moço.
— E porque distância, minha jovem?
— Distância aqui dentro, a gente não está juntos. Já te disse, não há nós.
— E precisa ter nós para estarem juntos?
— Não, mas pelo menos se precisa ter amor.
— E não tem?
— Tinhamos, passado.
— E o que aconteceu?
— Não sei, estou sentada aqui desde que algo aconteceu.
— Então é recente?
— O quê?
— Que vocês terminaram.
— Nunca estivemos juntos, hoje foi o dia em que se acabou a esperença.
— De vocês?
— Minha, a minha acabou. Já a dele, creio que nunca existiu.
Ele ficou quieto, sem ter o que falar e se levantou deixando apenas um pedaço de papel, onde se havia um número.
Sai correndo daquele parque e cheguei em casa, liguei para o tal número. Era uma clínica de ajuda. Eu não sabia o porquê, mas ele me achou maluca.
Mas quer saber, eu sou maluca sim, maluca por ele. Apenas ele, aquele que não se teve esperança.”
“Eu vi que é triste, sabe? Depois de tanto empenho, tantas complicações, tantos amassos, tantos abraços; depois de tanta coisa vivida, tantas reconciliações, tantos sorrisos sinceros. Triste, ver essas mudanças que aconteceram e perceber que foi em vão… Essas mudanças que eu fiz só pra “melhorar”, me tornar uma pessoas melhor, por você. É triste não te sentir mais aqui, ou melhor - ou pior -, de ter apenas em pensamentos. Eu errei, eu sei, mas quem não erra? Quem não comete um deslize aqui e outro ali? Mas mudei, por você. E agora? Parece que foi tarde né? Parece que venho te perdendo a cada instante que passa. Você até que me dá umas esperanças aqui e ali, mas depois acaba com elas. Mas é isso aí, uma hora passa, uma hora se torna imperceptível. E é triste. É triste ver que só restaram lembranças de momentos, bons momentos. Mas é como você disse, quem sabe a gente não se cruze novamente; quem sabe mais lá na frente a “chama” não reascende… Quem sabe.”
—
verborragias; quem sabe haja um “nós” novamente. (via
verborragias)